Gramaticalmente correta

A menina dorme

Posted in Uncategorized by Nayara Gonzalez on 15/11/2011

Acorda, menina. Quanto tempo você vai esperar pelo começo da sua vida? A vida é agora, menina. Pra onde você ainda vai fugir à procura da sua vida? A vida é aqui. A sua vida, menina, é só isso – e será que a vida é só isso? Acaso você queria mais? Claro que você queria mais, você que saiu de casa com mochila nas costas e ideias na cabeça. Sua vida ia ser fantástica, menina. E como foi que você chegou aqui? Em que esquina você pegou a rua errada e foi tão longe que já não sabe voltar? Menina, você tinha a vida toda pela frente – mas você tem a vida toda pela frente, então por que a pressa? Por que a ânsia de agarrar cada oportunidade como se fosse a última? Por que o medo de errar, se você já errou, menina? Não adianta estender a mão. Você que perdeu o amor, quem é que vai olhar por você? Não tem ninguém no medo da madrugada, só você. A sua vida, menina, é sozinha. Ninguém vê a mágoa no fundo dos seus olhos. Levanta, menina. Você já não tem tamanho pra ser embalada. Engole o choro, você que já chorou demais, já gritou demais. A vida é boa, menina, a sua vida já foi boa. Seus problemas não são esses que você inventa. Você é seu único problema. Toca a sorrir, menina, que a alegria também pode vir de fora. Espera o sol nascer. Só vale a pena ter medo do que ainda assusta à luz do dia. A vida também é dia. Toma tento, menina. A sua vida é você quem faz.

Vida e obra

Posted in Uncategorized by Nayara Gonzalez on 02/08/2011

Nascido em 19**, entrou no Twitter aos 23 anos, idade considerada avançada por muitos profissionais do meio. Não demonstrou aptidão no primeiro momento: comentava as condições climáticas e anunciava suas refeições.

Despendeu quase 5 meses lapidando seu estilo, porém com resultados notáveis. Em um período de grande carência afetiva, deu início ao que os críticos denominaram Fase Azul. Twittava sobre as mazelas da humanidade e os TTBr. Datam dessa época muitas de suas melhores obras.

Sua Fase Rosa foi demarcada por um maior apelo comercial, com uso excessivo de emoticons e hashtags. Embora tenha gerado certa repercussão entre o público, não se pode dizer que sua produção desse período apresente grande valor artístico.

Alguns críticos afirmam que o ápice de sua carreira foi pouco antes do tuitecídio, quando adotou um estilo incoerente dito inovador e até mesmo genial. Nem todos, no entanto, partilham dessa opinião: seu Tatibitate (como ficou notório no mundo das artes) pode ter origem no dialeto Tiopês, comum nas periferias da rede.

Não alcançou grande reconhecimento em vida, embora tenha galgado arduamente a escada do sucesso. Ao excluir sua conta, abandonou um montante humilde – porém não irrelevante –de 530 seguidores. Atualmente, o fake que republica suas obras conta com mais de 30.000 followers.

Modo de fazer

Posted in Uncategorized by Nayara Gonzalez on 01/12/2010

Retirar as sementes e parte do miolo da moranga. Fritar os temperos na margarina. Juntar os camarões, refogando bem. Adicionar a maisena peneirada. Juntar o leite aos poucos. Deixar esfriar e juntar as gemas. Desmanche o fermento no vinho. Juntar as claras e o queijo. Deixar no forno até o recheio ficar dourado e firme, até o recreio ficar desejado e perto, até o receio ficar esquecido, inerte, até o recente recender o aroma penetrante, trescalar, entre os pelinhos das narinas, qual meninas, deslizar entre os glups das goladas da cerveja no esperar, no sentir, pedir, implorar, mendigar, estender a mão… não fica pronto esse camarão!

 

(PAI, Meu. Receita de camarão na moranga. Livro de receitas lá de casa: Maringá, ano desconhecido)

 

“Aplaudir até sentindo dor é amar”

Posted in Uncategorized by Nayara Gonzalez on 16/11/2010

Estou escrevendo uma carta de amor.

Sim, eu sei quão brega isso soa, e quão ridículo é na prática. Dizem não há carta de amor que não seja ridícula. Eu prefiro organizar a frase de outra forma: se não for ridícula não é uma carta de amor (acredito que existe diferença, ainda que sutil; quem ama entenderá).

Acontece que estou escrevendo porque de quando em quando meus sentimentos me enchem e me transbordam e eu preciso represá-los em algum lugar. Meus amigos não agüentam mais ouvir as minhas angústias – parece que o senso-comum dita que, após um certo tempo, você deve superar um amor que passou, mesmo que pra você não tenha passado, mesmo que seja, talvez, o maior que você está destinado a ter em toda a sua vida –, então que solução me resta?

Escrevo à única pessoa a quem pode interessar, mesmo que eu não espere disso qualquer resultado concreto – sou mais romântica que pragmática. Se enviarei ou não é questão a ser resolvida depois.

E para adiar a decisão, me esmero no processo. Escrevo rascunhos, seleciono papéis importados na minha coleção, traço bem de leve linhas a lápis, componho uma paleta de cores de canetas, faço o envelope, amarro uma fita. Só não pingo perfume, numa débil tentativa de permanecer no campo do bom-gosto.

Estou escrevendo uma carta de amor porque não há no mundo alguém que escreva uma para mim.

Você é legal, mas nem

Posted in Uncategorized by Nayara Gonzalez on 15/05/2010

Nada diz “nem te quero” mais que um beijo na testa. O beijo na testa é carinhoso, mas pertence exclusivamente ao território da amizade. E não é só isso: o beijo na testa sabe que você queria mais. É o prêmio de consolação.

Sempre relacionei o beijo na testa ao fim de namoro. É o gesto que vem logo após ao “eu quero que você seja feliz”. Porque o beijo na testa quer que você seja feliz – mas não com ele.

A etiqueta não prevê o beijo na testa. Não existe maneira apropriada de se reagir a ele. Talvez o melhor seja aquele sorriso amarelo que responde “eu sei, mas valeu a tentativa”. Claro que sair correndo e se esconder debaixo da cama também é uma opção.

Sou fã desse sorriso estampado em sua boca

Posted in Uncategorized by Nayara Gonzalez on 06/04/2010

Eu sou uma pessoa musicalmente tolerante. Gostou de muita coisa ruim. Demorei anos pra admitir que, por trás de toda essa pretensa erudição, existe uma pessoa que lava a louça cantando Hit me baby one more time. Hoje minhas playlists passam de Britney a Chico Buarque, de folk francês a Lady Gaga, de Rihanna a canções renascentistas sem qualquer transição lógica.

Se gosto de muita coisa ruim, também deixo de gostar de muita coisa. Muitas músicas eu não ouço em casa, não canto no chuveiro, mas reconheço aspectos positivos. Uma levada boa, uma linha melógica empolgante, uma letra divertida. É o caso da maioria dos sertanejos. Eu fico brava quando a Keyla ouve, mas danço quando toca em uma festa.

Música é puramente situacional. Você não espera que toque Adriana Calcanhotto na formatura do seu primo, então joga-as-mãos-pra-cima-tristeza-não-interessa-vamos-fazer-festa-vamos-fazer-festa. Quem não sabe se adequar ao ambiente musical normalmente é pedante e prepotente.

Mas algumas músicas conseguem REALMENTE me irritar. Me incomodam de uma maneira que, se eu ouvir por muito tempo (1 ou 2 minutos), acabo ficando louca. O cinema do Mueller é mestre na fina arte de selecionar musicas insuportáveis. A cada vez que eu vou lá, tenho que passar por momentos de dor intensa, talvez pra poder dar o devido valor ao filme.

Aqui ao redor do Paço, os lojistas também acertam nas músicas pra tocar a altos brados o dia todo. Entre as minhas preferidas, está uma que diz assim:

Sou fã dos seus olhos

Sou fã da sua roupa

Sou fã desse sorriso estampado em sua boca

Sou fã do seu jeito

Sou fã sem medida

Sou fã número 1 e com você sou fã da vida

Aí quando eu me atirar na frente de um biarticulado em movimento não venham me perguntar porquê.